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25 de Julho de 2017

Brasil - Um Grande Titanic!

Diego Quixabeira, Estudante de Direito
Publicado por Diego Quixabeira
há 2 meses

Temer iniciou seu discurso na noite de ontem indignado com o que ele chamou de "retorno ao fantasma na política". Segundo ele, todos nós deveríamos concentrar nossas energias para colocar o Brasil nos trilhos, melhorando os índices, a taxa de juros e o retorno da inflação. Depois dessas afirmações estritamente econômicas, Temer passou a discorrer sobre a "ilicitude" das gravações que atentavam contra ele. Finalmente, conclui o discurso vociferando: "NÃO IREI RENUNCIAR, NÃO IREI RENUNCIAR".

O breve discurso de Temer nos remete, inevitavelmente, à fábula contada no filme Titanic. O filme se passa no imponente navio - o símbolo do progresso e da tecnologia. Em um primeiro momento pensamos que este navio serve a todos - Jack não encontra muita dificuldade para adquirir sua passagem. Entretanto, ele descobre que será alojado na parte inferior da embarcação. Lá, temos a classe pobre, os desprovidos de todos os acessos. Enquanto isso, na parte superior estão os ricos, nos grandes salões, ouvindo música clássica, fumando seus charutos em reuniões intermináveis.

Estes estão sempre próximos do capitão do navio, recebem todas as informações com relação ao clima, tempo de viagem, velocidade. Não seriam os lobistas do Congresso, querendo saber a todo o momento sobre o "clima" da economia?! Com as revelações bombásticas das gravações sobre Temer, não é de se estranhar que o dólar teve uma subida vertiginosa. Temer trabalha em prol do mercado financeiro, isso é fato. Continuando com a análise do filme... Durante o trajeto Rose - a rica com crise existencial - se apaixona por Jack - o pobre romântico sem rumo e destino.

Ambos vivem uma história de amor, livre da divisão de classes que antes os separava. Ao consumarem o ato, o casco do navio se quebra. Os pobres, obviamente, são os últimos a serem informados oficialmente. Nesse momento começa a luta pela sobrevivência. Mas isso é insignificante para os que estão na parte luxuosa do navio. Para eles existem botes sob medida que os acolherão juntamente com suas famílias.

A ética natural em casos de desastre é: "Primeiro salvem os idosos, as mulheres e as crianças". Mas a ética econômica é: "Primeiro os bilionários, milionários e os mais influentes". Essa "ética" é vista em vários filmes sobre tragédia e destruição global. Após o desespero da classe pobre, e os ricos devidamente protegidos e agasalhados em seus botes, é que um dos marinheiros percebe que muita gente ficou pra trás... E, ingenuamente, tenta voltar para ver se consegue resgatar alguém naquele oceano gelado e inóspito.

Na verdade, os fatos encenados no filme estão a serviço de uma grande fábula conservadora. Os economistas à todo tempo tentam nos fazer acreditar que as várias reformas: trabalhista, previdenciária, sindicais, os cortes na educação, saúde são medidas urgentes (feitas muitas vezes por medida provisória) e necessárias para salvar (o verbo é bastante revelador) o país de um possível choque com o iceberg.

Temer, com seu discurso de moço injustiçado, faz-nos pensar que realmente a economia é importância de primeira ordem, enquanto que as questões políticas, a corrupção, lavagem de dinheiro são questões secundárias e que podem ser deixadas para um momento posterior, quiçá resolvidas pela própria grei partidária que as criou, isso em salas fechadas – “no bom e velho estilo House of cards”. Essa denúncia da crueldade das classes abastadas de que mostra o filme é a metáfora do Marcelo da Odebrecht ou do Joesley Batista da JBS, que não se importava em pagar milhões de propina a quem quer que fosse: promotor, juiz, presidente da Câmara e até ministro do STF.

Todos sabemos que a política se tornou um balcão de negócios, mas ainda assim estamos como Jack - esperançosos e vivendo um amor platônico em nosso próprio mundo fechado. Jack se deixa morrer, e Rose, que deixa ele afundar pra não virar dona de casa. A cena em que Rose está sob a madeira e Jack pendurado, com o corpo de fora, é elucidativa da eterna divisão de classes. Jack não pode subir até ela, isso faria com que os dois afundassem. Não é o argumento tipicamente conservador da "igualdade pela pobreza"? Seria impossível então desfrutarmos de uma sociedade igual, uma vez que isso iria contra a ordem natural das coisas. Para restabelecer o equilíbrio natural, em momentos de crise, é necessário que o equilíbrio conservador da sociedade retorne ao seu status quo, isto é, as classes poderosas com seus líderes, pelos quais o povo deve se sacrificar.

A grande obscenidade do filme não está no egoísmo dos mais ricos, e sim no fato de que a própria natureza o legitima. Pergunte para um trabalhador assalariado hoje se ele é a favor dessas reformas... Provavelmente se surpreenderá quando ele disser que SIM, caso contrário o Brasil pára! Essa é a ideologia em sua perfeita representação, ou seja, o sacrifício dos pobres, tal como no desastre do Titanic é importante para que as coisas voltem ao normal e, como insiste Temer: - O Brasil retorne aos trilhos! Aos mesmos trilhos, diga-se de passagem, ocupando o 73º lugar no IDH.

Nesse sentido, o Iceberg é um símbolo fálico muito bem construído, porque catalisa os dois movimentos. A princípio, ele aparece enquanto punição divina da soberba dos ricos, que pressionam para chegar mais depressa em casa - nas palavras de Temer: - Temos que melhorar a economia, custe o que custar! No entanto, para isso, limitam a quantidade de pessoas nos botes, cortando educação, saúde, previdência... Apenas pra poder ter mais espaço livre, zombam de deus, etc. O Iceberg (leia-se: delações e gravações da PF) funciona para dar uma lição de humildade a esses homens.

Entretanto, todos (ou quase) os sobreviventes são ricos: o castigo recai novamente sobre os pobres, que não tem nada com a soberba da classe rica. É isso que acontecerá se acaso permitirmos que no lugar de Temer entre Rodrigo Maia ou Gilmar Mendes. É isso que acontecerá se não formos para a rua lutar exercendo nossos direitos políticos e cívicos. Não há outra saída pra nós.

Lembre-se: o navio político foi construído sobre medida para atender interesses espúrios dos ricos. Não podemos nos satisfazer com essas denúncias, como se fossem marcas indeléveis de nossa vitória em face da hipocrisia dos larápios que estão no poder. Isso é muito pouco. De nada adianta gozar momentaneamente, assim como Jack ao ter conjunção carnal com Rose, e momentos depois, morrer congelado e afundar nas profundezas do esquecimento. Devemos tomar a direção do navio ou morreremos todos, afogados pela onda neoliberal.

Diego Quixabeira e Souza

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